Numa bela manhã, estava eu em frente à praça principal da cidade, Praça João Borges, bem enfrente ao ilustre João Borges, bem, na verdade a estatueta do busto dele, mas era idêntica, era como eu o estivesse vendo, em seus plenos cinqüenta anos. Era um homem alto, robusto, com uma entrada para a calvície em seus grisalhos cabelos, olhos que fitavam tudo, firmes, um bigode a moda de sua época, e da minha também.
Ah sim, estava numa manhã, com um lindo céu, um lindo sol, ele brilhava, ou melhor reinava sobre tudo, em plena nove da manhã. Estava sentado num banco a sombra, em frente ao reverenciável sr. Borges. Eu já lhe contei sobre ele? Era um pioneiro na cidade, vindo de uma família de grandes agricultores, ele abandonou e vendeu suas terras, decidiu investir na indústria, montou uma metalúrgica e enriqueceu ainda mais, era apaixonado ao ver o metal tomar a forma desejada. Eu já o consultei muitas vezes como psicólogo, mas a tempos não exerço mais a função, apesar de ainda trazer certos hábitos profissionais.
Do que falávamos? Sim, daquela manhã, com o sol, o céu, o frescor da praça. Sabia que a praça é o local mais fresco de toda São Levi, de todo canto da cidade, aqui é o mais arejado, foi projetada para tal, por sinal, um grande projeto; mas não quero tomar muito o seu tempo hoje, deixe-me me concentrar em minha história. Então na manhã bela, olhei para a igreja, sim, a matriz, e lá vi uma mulher acenar para mim, e eu retribuir, apesar de não reconhecer a mulher, mas percebi depois que não era pra mim, como podia, ela acenar pra mim? Era pra um rapaz que passava por detrás de minhas costas.
Mas daí olhei para a torre do sino, sabia que ela já pegou fogo? Ninguém sabe ao certo, mas acreditam que foi um padre, padre Armandino, porém isto é boato, e não dou muito crédito para tais coisas, mesmo não tendo uma afeição por tal padre; Por que? É que ele uma vez me expulsou do meio da congregação, isto porque questionei certos hábitos dele, o de apresentar o interior da capela a crianças.
Lembro-me bem, estava eu quando pequeno, e meu grande amigo Nadir. Fomos à igreja beber água, pois estávamos correndo e brincando na praça. Então o padre apareceu, e perguntou se estávamos interessados em conhecer o interior da capela. Inocentemente aceitamos, e ele nos encaminhou por lá dentro. Mostrou todo o interior do prédio, a casa aonde residia os seminaristas, os quartos, tudo.
Porém em um momento, em que fui à cozinha pedir água a Dona Olinda, quando voltei, nem Nadir e nem o padre Armandino estavam aonde eu os deixei. Fiquei com medo, pensei que eles haviam sido tragados por algo, pois estavam ali, logo ali, e sumiram, era bem pirralho, e a imaginação aflorava em pura criatividade. Corri desesperadamente para casa, e depois de algum tempo fui à casa de Nadir, e ele já estava lá, só que estava dormindo. Nunca mais Nadir foi o mesmo, estava sempre indo à igreja, e acabou se tornando seminarista. Chegou até a se formar em filosofia, mas antes que fosse nomeado padre faleceu em depressão, pois dedicava a sua vida em prol da igreja, e não tinha tempo nem para si. Pobre homem.
Mas retornando, ao me lembrar de toda a minha história naquela igreja, quando ia a missa com a minha falecida mãe, quando adolescente que participava do grupo de jovens, dentre outras lembranças. Decidi-me levantar e entrar novamente na igreja, após anos sem sequer pisar o pé na mesma. Ao entrar, vi uma grande cruz com o Cristo, esta era nova, o palco e o altar também, toda igreja havia sido reformada, e eu nem sequer sabia disto. Curioso, entrei mais, e a admirei, não havia ninguém. Após um tempo, decidi rezar, fazia tempo em que não falava com Deus.
Me ajoelhei, fechei os olhos e rezei, rezei pela alma de tantos, para que tivessem luz, e entendessem o significado da vida, depois parei-me e percebi que eu também não o entendia, e pedir tudo isto pra mim também. Ao terminar, abri os olhos e me levantei, deparei-me com a assombração do padre Armandino, na verdade, era uma assombração mesmo, pois me lembrei que ele havia morrido no incidente do incêndio. Mantinha cicatrizes de queimadura pelo lado direito do pescoço e um pedaço do rosto, as mãos estavam queimadas, e eu sentia o cheiro de carne tostada, uma visão horrível. E ele disse. “O que fazes aqui infiel, não vês que aqui é a Casa do Senhor, e que ímpios não podeis entrar?” “Ímpia é a sua alma, desgraçado!” Revidei. Então perguntou novamente. “O que fazes aqui?” Em tom mais forte, e respondi. “Como um cristão, vim rezar pelas almas das pessoas próximas a mim.” E ele rebateu. “Tais pessoas já estão com as almas perdidas, não terão o perdão de Deus, assim como você alma penada.” E que de imediato, como que inconsciente, questionei. “E tu, tens salvação?” Sua pele branca tomou a cor avermelhada da ira, estufou o peito, mas se conteve. “Sou intermediário de Deus e os homens, logo sei diretamente como atingir a salvação.” “Incitando crianças inocentes?” Abertamente falei. Novamente ele se recontorceu, avermelhou-se e explosivamente alegou. “Sou um sacerdote de Cristo, fiz um voto de celibato, não me ofendas assim, herege!” Ri ironicamente, mas antes que rebatesse a ofensa, alguém nos interrompeu, o informando que estava tudo preparado, apenas isso e entrou.
Minha curiosidade aguçou, como o de sempre. Mas contive-me, pelo menos no instante, e ao padre ir, sem sequer olhar para mim, eu me esgueirei para dentro do templo. O que seria que o moribundo fantasma de Armandino teria para fazer, se nem as criancinhas mais o viam para aliciliá-las. Passei pelo altar, atravessei a expeça cortina furtivamente, Armandino olhou para trás, mas me escondi atrás de um móvel, ele ficou por lá, fitando por alguns segundos, o que me deixou bastante apreensivo. Ao padre ir, atravessei ao corredor e olhei pela fresta da porta aberta da porta em que o demônio acabara de entrar. Deparei-me com algo pior do que pior do que o vil padre somente, pior do que criancinhas seduzidas. Algo hediondo, algo que eu nunca pensei que veria em um lugar como aquele. Uma verdadeira ofensa à integridade de tantos cristãos. Algo que penso duas vezes em contar, mas contarei a você pois sei que não interferirás em tua fé.
Vi uma orgia, uma blasfêmia, dentre em média de doze aberrações do mundo dos mortos. Padres, seminaristas, beatas, presos a atos sexuais após suas mortes. Satisfazendo-se com orgias em que provavelmente praticavam em vida e se apegaram demais para largarem após a morte. Vi também Nadir, estava montado em cima de uma beata enquanto estava com a sua boca no pênis tostado de Armandino. Uma lágrima ectoplasmática rolou por minha face. Era triste ver um amigo meu preso a tal ato hediondo, ato que nunca pensaria que presenciaria em minha vida e morte.
Assim, saí da igreja, desta vez não me intrometi, era ofensivo demais, até mesmo para mim. Oh, pobre Nadir, preso às corrupções e perversões de um infame padre, desde sua juventude. Parti, passei pela praça, mas o dia já não estava tão lindo quanto cedo. Lembrava-me apenas do sorriso de tesão de Armandino, sendo saciado por suas luxúrias diabólicas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário