Patrícia..., doce Patrícia, talvez não exista alma mais pura. Pura nas idéias, pura nas atitudes, pura nas palavras. Sempre freqüentando a igreja junto com seus pais, em sua pequena e pacata cidade, esquecida nos confins dos campos e vales do interior de seu país.
Para o leste viam-se altas e imponentes montanhas com seus picos querendo tocar os céus, ao sul depois de densas florestas via-se uma região pantanosa sombria, fria e amarga que se estendia até o extremo oeste da cidade. Ao norte um vale entrecortado por um lindo riacho com enormes corredeiras. A oeste após o pequeno, mas intrigante cemitério da cidade e após a região pantanosa a continuidade da vegetação formava um cinturão verde que além de manter a cidade isolada e fria, emprestava-lhe um ar triste e sombrio, retratando um estigma interior como se nascesse marcada com a culpa dos acontecimentos que estavam por vir. Outro fato que lhe emprestava essa tristeza era o fato de a grande maioria das crianças ali nascidas serem enviadas a cidades maiores, logo nos primeiros anos para receberem instrução, cultura e a introdução profissional, julgada tão “necessária” a vida.
Assim a média de idade da cidade era de 35 anos, pois era como um mal genético os filhos voltarem após adultos para esquecerem tudo o que haviam aprendido, em troca da vida simples e rotineira “à sombra da montanha”, baseada na agricultura, caça, pesca e artesanatos, que uma vez por mês eram levados à venda em uma feira na cidade grande, era o evento cultural de maior proporção para os moradores, o único meio de se conhecer o que se passava no resto do mundo. Após as vinte e uma horas toda a iluminação das treze ruas da cidade era desligada tanto para economizar o combustível do gerador como para poupar o próprio.
Patrícia era uma das poucas exceções às crianças de lá, pois, não fora mandada para fora, seu pai acreditava que sua filha estaria perdida na cidade grande, queria ela sempre sob suas vistas, era como que um ciúme doentio pela filha, a ponto de causar inveja até um sua própria mãe, loucura paterna, protecionismo como se sua filha fosse uma...
Patrícia tinha os cabelos cacheados, finos, volumosos, e vermelhos, um brilho que contrastava com ar sombrio da cidade, assim como sua pele alva, beirando a transparência, faziam o contraste perfeito com as longas mechas vermelhas que emolduravam seu rosto. Seus olhos além de grandes e verdes intensos tinham um desenho perfeito, silios longos, boca pequena e lábios róseos, nariz pequeno pontudo... Aos dezoito anos tinha os seios redondos e firmes e uma silhueta invejável a qualquer modelo. Linda... esta é a palavra que poderia resumir Patrícia.
Era como que sagrado todas as quintas-feiras à noite e aos domingos de manhã a família de Patrícia seguir unida para a igreja, assim como os demais moradores. A missa que terminava às 20h30min horas, proporcionava um encontro entre as pessoas que tinham, após o término da missa, meia hora até o toque de recolher imposto pelo gerador da cidade, essa meia hora era regada a comentários da vida alheia e os grandes acontecimentos da vida medíocre dessas pessoas.
Os vizinhos da família de Patrícia eram muito amigos de seus pais e tinham um filho com 21 anos que foi para cidade estudar e não quis cursar uma faculdade optando em retornar ao seio familiar. Rômulo estava se apaixonando por Patrícia, apesar de saber, ou melhor, de todos saberem que qualquer um que se se apaixona por Patrícia não teria como se aproximar, pois seu pai jamais permitiria, teria que alimentar um amor platônico, ele sabia disso, sabia que seu amor era impossível, mas todos sabem da historia do fruto proibido, certo? E com Rômulo não foi diferente a fato de saber que era lhe impossível à aproximação de Patrícia, alimentava e fortalecia esse novo sentimento. Sim novo sentimento para Rômulo, pois sempre fora alheio às mulheres, deu suas beijocas sim, mas nada parecido com primeiro amor... Mas ao cruzar com Patrícia pela primeira vez depois de voltar do período de estudos... Impossível resistir à tamanha beleza, Rômulo sentira o gosto, a dor e a emoção de amar.
Tamanha infelicidade fora que Patrícia percebeu os olhares de Rômulo e dentro dela crescia a admiração por este corajoso rapaz que resolveu ir contra todos e direcionar-lhe olhares lânguidos, sorrisos matreiros, piscar de olhos, morder de lábios. Sim, Rômulo não se contentava em só sentir, tinha que se expressar silenciosamente ele gritava “eu te amo Patrícia” com seus gestos ele conseguiu que sua amada percebesse sua intenção. Patrícia começou então a se envolver com o atrevimento do rapaz, e começou a retribuir os olhares , as piscadelas, os sorrisos, sempre se certificando de que o pai jamais perceberia, e esse ato de se esconder do pai e dos outros, além de tudo começou a se tornar uma gostosa brincadeira, um jogo de azar onde até o momento só os dois ganhavam, foi um sentimento que se tornou o tempero ideal, tornou-se o fermento para aquele amor jovem, puro, virgem, verdadeiro, proibido.
Aquele amor agora correspondido por Patrícia, deixava Rômulo louco, ele não podia se conter, por que tanto sofrimento, porque não poder tocar, beijar, acariciar sua amada, porque teriam que amar separados, Rômulo podia sentir o amor que Patrícia agora lhe tinha, sabia que Patrícia também sofria com essa separação. Rômulo decidira, esta situação tem que ter fim, ele precisava beijar Patrícia, como Deus poderia proibir, ou deixar proibir tal amor, não isso não era obra de Deus, Deus os queria juntos, e cabia a eles trabalhar para isso, ter a coragem de assumir todo e qualquer risco em nome de um amor que jamais seria igualado por outro ser vivo.
Estava decidido, na próxima quinta-feira, Rômulo daria um jeito de entregar um bilhete a Patrícia marcando um encontro escondido, sim era esta a solução momentânea. Rômulo só precisava pensar por Patrícia, que horas ela conseguiria dobrar o pai e, que lugar estariam eles totalmente livres, dos olhos sedentos de fofocas, do povo da cidade. Após muito pensar, Rômulo chegou a uma conclusão mais do que lógica dentro do contexto que se lhe apresentava. Seria durante a noite após o “toque de recolher” e seria dentro do cemitério...
Era costume do povo daquela região construir grandes mausoléus para abrigar toda uma geração da família, ou mais entes, de modo que eram poucos os túmulos, porém verdadeiros “palacetes”, até os de menos posses construíam grandes túmulos, às vezes passando por privações para manter a tradição, quase que sagrado para os habitantes daquelas paragens. Havia muitas estátuas de anjos, santos, gárgulas, entidades mitológicas, enfim, uma gama imensa de estilos. Com imensos brasões familiares, e sem cores, era tudo cinza ou da cor da pedra utilizada, não havia mármore, nem outra pedra ornamental mais conhecida, somente pedras da região, retiradas na sua grande maioria do riacho, ou então cimento cru, outro padrão eram as escrituras, sempre em ferro fundido na própria cidade, que também não era pintado, o que os deixavam sempre enferrujados, emprestando um envelhecimento ao ambiente, que junto com algumas árvores com poucas folhas e um gramado mal cuidado, tornavam o cemitério intrigante, e talvez pavoroso, deixando os forasteiros ao mesmo tempo curiosos, assustados, provocando um desconforto que os impediam de adentrar ao cemitério. A grandiosidade dos túmulos encolhiam a alma dos despreparados.
Quinta-feira, pós missa, Rômulo deu um jeito de entregar o bilhete para Patrícia, foi mais fácil do que ele imginara, e o que era melhor, ao entregar o bilhete tocou sua mão na dela e pode sentir toda a pureza e maciez daquele anjo ruivo... Mal dormira a noite, ansioso pelo encontro, (marcara para trinta minutos após o desligar das luzes, dentro do cemitério pulando o muro que ficava para o lado da igreja) podia sentir Patrícia junto dele, sabia que ela daria um jeito de ir, sabia que naquela noite teria aquele corpo, transformaria a “pureza” de Patrícia, a tornaria mulher... masturbava-se pensando nos momentos que teria com sua amada.
Sexta-feira, 21h30minh, Rômulo já estava do lado de dentro do cemitério, mal podia respirar, não podia ficar parado, ora cantarolava, ora falava sozinho, ora sentava, ora andava, ora se coçava... Então o inacreditável aconteceu... Patrícia pulou o muro e caiu cambaleante, bem a sua frente, de camisola de seda branca, com os cabelos vermelhos soltos ao vento, com os seios rígidos pelo frio, seus mamilos querendo atravessar a seda rosa, o vento ao colar sua camisola em seu corpo mostrava a Rômulo toda a perfeição daquele presente divino que estava a sua frente, ambos como que por telepatia sabiam que não havia tempo para conjecturas, falácias ou pensamentos, entregaram-se um ao outro num abraço apertado seguido de um beijo estonteante, num outono ameno para aquela região, o frio que incomodaria em situações normais, refrescava apenas, o calor do fogo que consumia ambos os jovens, Rômulo não podia acreditar no que estava acontecendo, não podia ser verdade que tinha tão bela jovem a seus braços, como que se entregando a toda e qualquer vontade de seus desejos, começaram a se despir, sem para de se beijar, o gosto da boca de Patrícia era tal como alucinógeno, sua pele lisa, macia, suas curvas torneadas, o sabor de seu corpo, o cheiro de sua vagina, Rômulo não podia se conter mais ao vê-la nua deitada no concreto do calçamento de um dos mausoléus do cemitério, aquele contraste entre a beleza de Patrícia e a morte, a pureza de sua virgindade e o viciante sabor do desejo carnal, o vermelho de seus cabelos e o cinza do tumulo, o calor de seus corpos e o frio da estação, todos esses contrários tornavam a cena mais herótica, o silêncio quase combinado de ambos, a respiração ofegante, seus corpos pedindo o corpo do outro, era inevitável, Rômulo penetrou a Patrícia, sua doce, quente e intocada vagina, fora penetrada pelo membro viril de Rômulo, os movimentos do coito eram embalados pelas mordidas e beijos que se trocavam. Mas algo estava acontecendo com Rômulo, como ele também era virgem, e só conhecia o orgasmo através da masturbação, Rômulo achara que o calor excessivo, a respiração ofegante, o suor, eram normais, porem os níveis normais haviam se ultrapassado há tempos. Patrícia em toda sua inocência percebia que seu amado estava diferente, mas tudo era diferente para ela naquele momento. Rômulo começou a tremer, começou a se emocionar e naquele vai e vêm suas estocadas foram se intensificando, e o amor se transformou em tesão, o tesão em euforia, a euforia começou a virar fúria, Rômulo não entendia, mas estava dominado, não podia parar, era gostoso, sentia suas unhas entrando na carne tenra de Patrícia, unhas?... Sentia o gosto do sangue de Patrícia a cada nova mordida... Sentia sua vagina rasgar a cada estocada, Patrícia a esta altura gritava e pedia para Rômulo parar, Rômulo não ouvia nada além do desejo incontrolável de ter aquela jovem, e Rômulo a teve, a teve como qualquer demônio tem sua presa, o sangue que saia de sua vagina já formava uma poça, o pênis de Rômulo estava três vezes maior do que o normal, Patrícia não gritava mais, suas forças eram suficientes apenas para breves gemidos, Rômulo em sua fúria, dilacerava as costas de Patrícia com suas unhas, Patrícia já não tinha mais os seios, que se desmancharam entre os dentes de Rômulo, o sangue era lambido por Rômulo, aquele coito bestial chegava ao fim, Rômulo ao ter o orgasmo com a força com que apertou o irreconhecível corpo de Patrícia, quebrou sua coluna e algumas costelas, uivando como besta, com os pelos ensangüentados, Rômulo deixou-se cair de lado, o corpo até então imaculado de Patrícia, contorcia-se em espasmos mortais, fezes saiam pelo que sobrou de sua vagina, os ossos das costelas estavam expostos em suas costas, um de seus olhos saltado da órbita, fixava o nada, escorria sangue por sua boca e ouvido, seu seio agora misto de gordura, sangue, pele e baba e todo o resto da cena combinava com a criatura caída em êxtase ao lado, rosnando em orgasmos, delirando febril, rindo diabolicamente tendo como única e muda testemunha a Lua cheia...
Rômulo acordou de madrugada, meio atordoado, e ao olhar o corpo irreconhecível de Patrícia, lembrou em “flashes” o que ocorrera, ainda tinha o gosto de sangue na boca, sangue coagulado embaixo de suas unhas, estava nu... Ao compreender o que ocorrera começou a chorar copiosamente, pois acabara de matar seu grande amor, e descobrira quão brutal maldição o assombrava, a dor moral, sentimental e psicológica roubava-lhe as forças, pensou e matar-se, mas não lhe foi possível pela falta de coragem, amaldiçoado duplamente, pela maldição do lobo, e pela maldição de ter que conviver com a dor de ter tirado a vida de sua amada tão brutalmente. Ele tinha que fugir, não poderia suportar além de tudo, o julgamento alheio, correu para a mata, num furor mesclado de dor, medo e revolta, Deus o abandonara, sua tão sonhada noite de amor, transformara-se em um tenebroso circo de horror, lembrou das histórias que seu pai lhe contava sobre o avô, ser estranho que assombrava a todos e retirou-se do convívio social pela intolerância cega do povo, e percebeu que não era apenas história para assustar criancinhas, era a verdadeira história de sua família, era a maldição secular geneticamente enclausurada em seu sangue, era o chamado da besta, era a beleza tortuosa do lado escuro...
Rômulo sumiu da cidade, viveu até o fim de seus dias alimentando-se de animais silvestres e embriagando-se na dor do ato cometido, na dor aguda de dilacerar o amor, de aliciar a pureza, de transformar o brilho ofuscante do amor em um surdo gemido, calcinante, penetrante, maldito, o sabor do sangue de sua amada jamais foi esquecido, o amor platônico que num coito diabólico foi transformado em culpa, arrependimento e sofrimento eterno, era voluptuosamente descrito em cada uivo agudo e sombrio que cortava as noites de lua cheia...
FIM
DANIEL XAVIER DOS SANTOS
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